sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Sentido!


O garoto saindo discretamente pela porta dos fundos: sou eu. Tinha uns oito, nove anos e meu pai ainda insistia que eu fosse acompanhá-lo no futebol de domingo, “vai que você toma gosto?”. Nunca funcionou. Enquanto ele driblava o time adversário, eu driblava a atenção dele, explorando o clube ao redor. O lugar era enorme! Eu me aventurava embaixo das arquibancadas, me superava no playground, observava desejoso a piscina olímpica, comprava chicletes com as moedas ganhadas de meu avô, enfiava tudo na boca para fazer bolas gigantes com ar… Foi numa dessas jornadas que descobri um ginásio escondido do outro lado do campo onde papai jogava bola. Curioso, desde cedo fascinado com o fato de não conseguir controlar a mente pra leitura do mundo, deixei meus olhos correrem pelo painel de horários afixado na porta. E li, da ponta dos óculos fundo de garrafa: “Oito e meia: Kung Fu”. Kung Fu? 

Lembro com bastante clareza dos olhos arregalados do meu pai darem lugar ao alívio de ter me encontrado – aparentemente ele ficara uma hora me procurando depois que o jogo dele acabou. Ele me segurava pelo pulso, forte, o rosto meio pálido meio nervoso. “Eu fiquei preocupado, filho, achei que você tinha fugido”, “mas pai…” e eu quase disse que preferiria o futebol a fugir de casa, mas não gostava de jogar bola de jeito nenhum e não aprendi a mentira, então só respondi: “desculpa”. 

O que eu vi no ginásio aquela noite – o Kung Fu – foi um dos primeiros segredos que guardei na vida. Um segredo entre o destino e eu. 

O tempo passou e eu aprendi que não tínhamos dinheiro pra Kung Fu. Logo, na minha cabeça e nos meus textos, eu sempre era o maior lutador da China antiga, com espadas e bastões, reinos e exércitos, tudo ao meu dispor. Quando era adolescente e “O Tigre e o Dragão” passou na TV, eu estourei pipoca e escondi embaixo da cama, me esgueirei do quarto depois da hora de dormir e liguei a televisão no volume mais baixo. Nem meia hora de filme e papai apareceu na sala. “A mãe vai me matar, né?”. Ele sentou do meu lado e disse: “acho que vai matar nós dois”. Vimos o filme inteiro e eu tirei D na prova do dia seguinte. 

Quando a vida adulta invadiu meu mundo, o fez de supetão: uma hora, a paz, e, na seguinte, eu saía de casa, trabalhava, enxergava nos meus pais as piores discordâncias. Brigamos, choramos, fugimos, sofremos – como todo mundo faz. No meio desse caos todo (som de explosões pra dar dramaticidade) todo mundo se uniu quando eu descobri estar com câncer. Eu tinha 22 anos. 

Uma cirurgia de biópsia depois, acordei no meu quarto do Hospital São Bernardo. Fora do horário de visita, eu me sentia muito sozinho e entediado. Louco pra sair dali, com um pouco de mágoa da existência – por ter me jogado na cara a possibilidade da morte sem qualquer pudor – eu andava pelo quarto, com dor mesmo, porque eu só queria me sentir dono do meu corpo. 

Naquela noite fui até a janela, olhar a rua. E meus olhos, meu cérebro, eles… Leram. Enviesado, o vidro me entregava a visão de uma fachada amarela do outro lado da rua, a rua Lucas Nogueira Garcez. Lá, um Ying e Yang desenhado dentro de uma rosa dos ventos. “TSKF”, eu li, “Templo Shaolin de Kung Fu”. Até hoje sou fascinado pelo fato de não conseguir controlar a mente pra leitura do mundo. 

Curado, tantos meses depois, me vi adentrando os tatames do segredo que partilhei com o destino. Fernando, meu primeiro instrutor, me ensinou como amarrar a faixa branca. Lembro dele me falando no fim da aula: “quando eu falar ‘sentido!’, você faz assim… Não, assim. Eu vou falar ‘fora de forma’, aí a turma grita ‘Templo!’”.  Eu errei tudo, claro. Quando ele falou “sentido!”, eu só consegui pensar: “poxa vida, e não é que faz sentido mesmo?”. Eu contemplava o equilíbrio entre meu sonho de infância e minha realização de adulto. 

No último campeonato que competi, não ganhei medalha, mas a ironia: meu pai estava lá e, diferente do meu eu criança, fugindo de jogos de futebol, ele me assistiu do início ao fim. Vinte e oito anos na cara, timidamente subi pela arquibancada, falando: “é, pai, me ver ganhando medalha vai ficar pra próxima”. Ele respondeu: “…mas eu te vi lutando, filho”.  

Rafael Pelvini




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