quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Ouvir o Silêncio


 "Existem lições que não podem ser ensinadas, mas devem ser aprendidas". 
(Anônimo)

“Esvazie sua xícará” – (Parábola Japonesa)

Um dia um acadêmico procurou um mestre budista com o intuito de aprender os segredos de sua doutrina. O mestre ficou feliz em recebê-lo, no entanto, a cada vez que tentava lhe ensinar algo, o acadêmico lhe questionava com outras teorias a respeito do mesmo assunto. Depois de tentar ser ouvido algumas vezes, sem sucesso, o Mestre decidiu mudar sua abordagem e convidou-o para tomar chá.

Muito polidamente, o mestre serviu o acadêmico enchendo a sua xícara até que a mesma transbordou sem parar. O acadêmico irritado, perguntou ao mestre: - Por acaso, não percebeu que a xícara está completamente cheia e que já não cabe mais nenhuma gota?

O mestre então parou de derramar o chá sobre a xícara e disse calmamente: - Assim como esta xícara, o senhor está cheio de opiniões e conceitos pré-estabelecidos. Desta forma, como poderia entrar um novo ensinamento? Como poderei dar-lhe novas ideias e perspectivas, se você não tem espaço pra elas?

Em seguida, o mestre fez uma pausa por um breve momento e disse-lhe com olhar compreensivo, porém firme: - Se você realmente busca ter conhecimento constante, então tem que esvaziar sempre a sua xícara. O acadêmico olhou o mestre perplexo e só então percebeu a veracidade que havia naquelas sábias palavras.


Optei por iniciar esse texto por essa parábola para, antes de exaltar os predicados do silêncio, resgatar o significado do ouvir. Como diz Rubens Alves no seu texto Escutatória: - “Escutar é complicado e sutil”; e segue parafraseando o Alberto Caeiro: - "Não é o bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma”. Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente pensa a respeito. Como se aquilo que o outro diz não fosse digno consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer.

“Se tuas palavras não forem mais belas que teu silêncio, cala-se” – (Sabedoria Sufi)

Inevitavelmente cometemos erros e erros de diversas naturezas. Ora por falar sem pensar; ora por se omitir de falar. E devemos estar constantemente vigilantes ao nosso comportamento para não tornarmos esses deslizes hábitos petrificados. No geral, somos alertados de nossos erros, para que possamos corrigi-los. Mas e se esse alerta não vem? Ou melhor, se ele não vem da maneira como esperamos? Convencionalmente como uma bronca ou orientação verbal?

Particularmente, acho que essas advertências são as piores.

O Shifu Danillo utiliza no Di Zi Gui a metáfora do ferreiro para se referir ao trabalho do Shifu na formação de seus alunos. O próprio Mestre Gabriel repetidas vezes diz forjar seus alunos a “fogo brando”. Se pudéssemos observar com cuidado um ferreiro em seu labor, perceberíamos que um dos processos do feitio da espada é escalda-la, ou seja, tirá-la do calor e submetê-la ao frio. O silêncio, o vazio e o frio parecem correlatos dos sentimentos que tentamos descrever quando existe a ausência de palavras.

A ansiedade de manter-se constantemente ocupado ou com os ouvidos ocupados é uma fuga de si mesmo. Proporcionar-se momentos de silêncio, aprendendo a ouvi-lo e entendendo o que ele esconde, dentro de si, é de fundamental importância, para o equilíbrio emocional e bom desenvolvimento das capacidades humanas.

Diversas vezes ouvi o Mestre Gabriel dizer que muito já foi dito e que agora, não cabia mais repetir certos ensinamentos. E, até com mais rigor, utilizar a parábola “não jogar pérolas aos porcos”, não no sentido de nos subestimar, mas para mostrar que, naquele momento, não estávamos ainda prontos para ouvir o que ele tinha a dizer; ou que não perderia mais tempo repassando sua sabedoria e fundamentos de utilidade plena àqueles que não querem ouvir, ou que mesmo ouvindo, não farão uso destes ensinamentos.

Nosso Mestre, Gabriel Amorim, construiu uma história de forma transparente e digna, para que todos aqueles que o escolheram como Mestre pudessem seguir os seus passos rumo a excelência e ao sucesso, não só no Kung Fu. O Kung Fu, na verdade, é a ferramenta que ele escolheu para auxiliá-lo no seu processo evolutivo, e que divide com tanto prazer conosco, afim de que possamos encontrar equilíbrio em todos os sentidos (lema que nossa escola ostenta com orgulho). O que quero enfatizar com isso é que o “seu exemplo” é o maior ensinamento que ele poderia nos dar. Basta ter olhos para ver a sua obra e nela se inspirar.

Podemos concluir até aqui que as palavras falam, mas o silêncio também. Existem silêncios muito expressivos. Falam alto, gritam forte nos ouvidos.  Bons entendedores são capazes de compreendê-los, em seus plenos significados. Logo, dar provas de acolher alguém em seu silêncio é de um valor inestimável, denota empatia e humildade de quem se presta a apreender com todas as experiências que a vida lhe proporciona.

Ludmila Dantas 
TSKF Itaim


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quarta-feira, 27 de julho de 2016

Faixa X Tempo de Treino

Quando iniciamos uma jornada nas artes marciais como: Judô / Karate / Kung-Fu e etc. Pensamos que será como um curso com inicio/meio e fim, daqui a 5 anos serei um Shifu (professor de alta qualidade) e mais uns 2 anos terminarei sendo MESTRE! 

Bom, sinto lhe informar que não é assim que funciona com as artes marciais. 

Existe um caminho a ser seguido onde o artista marcial será testado em vários aspectos desde sua lealdade, confiança, o tempo e muitas outras coisas. Quando falamos de Kung Fu estamos falando de algo que irá demorar uns 20, 30 anos pra mais, na verdade, é algo que nunca termina! 

Pelo titulo do texto, o que eu quero tentar explicar é que nem sempre ter uma graduação alta com o pouco tempo de treino, o deixa ser altamente qualificado. O que eu quero dizer com isso!? 

Cada faixa tem seu tempo de amadurecimento, a faixa branca (iniciante) tem seus meses, a roxa (intermediário) tem seus anos e a preta (avançado) suas décadas! RS! 

Vamos ver um exemplo de quando o praticante vai rápido demais em sua graduação:

Se um praticante com pouco tempo de treino for uma faixa preta, ele certamente terá uma dificuldade no aprendizado, em campeonatos ou demonstrações, sem o tempo de treino necessário terá aqueles brancos na técnica, sentirá uns nervosismos de dar uma tremedeira. Mas isso não significa que deve esperar ter o tempo de treino para começar a tentar, começando desde cedo você já irá passar por tudo isso sem se preocupar com sua faixa, imagina um faixa preta esquecendo a técnica no meio de uma competição, ficaria feio para ele não é verdade?! Mas se fosse um faixa menos graduado, vamos dizer que não teria tanto problema, pois você só esta começando! Quando você tiver o tempo de treino coerente com a faixa, não precisará se preocupar com nada desses exemplos que dei, pois já passou antes.  

Tendo menos tempo do que necessário para faixa terá essa dificuldade tanto tecnicamente como na conduta marcial, esse aluno pode ate aprender a técnica, mas não fará com fluidez/flexibilidade ou com a força necessária...!  Não será igual a outro faixa preta só que com x tempo a mais de treino. 

Agora o aluno que tem seu tempo de treino coerente com a faixa, certamente terá mais sucesso em suas realizações como demonstrações, campeonatos, na hora de sua aprendizagem terá mais facilidade em executar a técnica mais rápida e sem tanta repetição, são aqueles alunos que quando se ensina uma vez já esta fazendo melhor que o professor! Por isso quando o Shifu diz tudo tem seu tempo, não é à toa, cada faixa tem seu tempo de amadurecimento, claro que nem todos são iguais, uns são mais rápidos e outros acabam ficando mais tempo. Eu Piero, já ouvi uma historia do Mestre Gabriel que um aluno dele chegou à faixa preto bem rápido, mas ele era muito bom mesmo, era fora do normal! 

Para terminar quero que entendam o seguinte! 

 Se você estiver tento dificuldade em executar uma técnica ou na hora de aprender sente uma dificuldade e precisa repetir varias vezes, falhou em campeonato ou numa demonstração, tenha PACIÊNCIA, dê o tempo necessário para o amadurecimento e o resultado virá!   

 Como o Mestre Gabriel diz: 
Temos que ver demonstrações de campeões, para saber em que podemos melhorar! Mas lembre-se de que os campeões têm 10, 15, 20 anos de treino, quando você tiver perto disso você fará próximo, igual ou até melhor! 


Piero Tubino
TSKF Consolação

www.tskf.com.br/academias
 

terça-feira, 19 de julho de 2016

Agir sem pensar é ser escravo sem saber



Temos uma ideia errada de liberdade

Liberdade é algo almejado pela grande maioria das pessoas. É muito difícil ver alguém escolher a servidão ou a submissão. Mas é importante notar que, em geral, as pessoas tem uma ideia errada do que é liberdade. Ser livre, em princípio, deveria ser algo simples. Tudo que seria preciso é a ausência de obstáculos entre nós e o que desejamos. Porém, esse conceito não é compatível com a realidade, pois sempre existirão obstáculos. A liberdade só pode ser alcançada quando aprendemos a lidar com os obstáculos e agir independente deles.

Somos escravos:

O fato é que a maiorias de nós são escravos. Não no sentido de termos um senhor que nos obriga a executar tarefas desagradáveis. Mas no sentido de que muitas pessoas vivem a vida inteira sem conseguir as coisas que elas querem possuir e sem se tornar as pessoas que elas querem ser.

  • Vícios naturais

O ser humano é um animal. Mesmo que tenhamos uma grande capacidade racional, não passamos de um bicho engenhoso. Temos vários impulsos animalescos que nos mantêm vivos. Comer e beber são exemplos. Quando temos fome estamos sob um comando natural que só acabará ao ser saciado. Se estivermos famintos o bastante comeremos qualquer coisa (experimente procurar geofagia no Google para verificar). Isso ocorre porque nosso corpo está no controle. Neste caso ele manda em nós.

Em geral isso não é um problema. Pelo contrário, isso nos ajuda a sobreviver. Mas, muitas vezes, o corpo toma o controle da nossa vida de forma brutal. A vontade de comer pode fazer uma pessoa comer indiscriminadamente, tornando-a obesa, hipertensa ou até mesmo provocando diabetes. Isso ocorre, pois, muitas vezes, nos tornamos escravos das necessidades do corpo. Comer é preciso, mas com moderação. E esse controle tem que vir da nossa razão, e não de um impulso natural.

  • Vícios sociais

Além de ser um animal, o ser humano tem uma vida social. Isso quer dizer que as nossas relações com a cultura e com as pessoas tem um peso enorme nas nossas ações. Através do contato com a cultura podemos agir melhor com os outros utilizando a etiqueta. Nossa forma de se vestir, as palavras que usamos e até mesmo que informações compartilhamos são ditadas pela relação com o outro. Ninguém se veste em casa como se vestiria para ir a um grande evento ou divide as mesmas informações com um conhecido e com um estranho.

A sociedade tem regras que tornam a vida mais fácil e pacífica, mas a pressão por ser socialmente aceito pode nos escravizar se não estivermos conscientes desses perigos. É muito comum ver pessoas prejudicando sua saúde em prol de um ideal de beleza. Muitas vezes essa é a causa de problemas como a anorexia e bulimia. Também é comum que maus hábitos da sociedade nos afetem. Hoje em dia não há uma cultura da prevenção de doenças, mas sim uma cultura de remediação. Isso significa que as pessoas em geral não cuidam da sua saúde a não ser que elas estejam doentes. Isso faz que muitas pessoas se alimentem mal até que se descubram hipertensas, por exemplo.

Temos que agir com Autonomia

Para não sermos escravos de nossos corpos e nem da sociedade é necessário construir uma noção de autonomia. Analisando a etimologia dessa palavra veremos que auto = próprio e nomos = leis, assim, autonomia é crias suas próprias leis. Ser autônomo nesse caso é usar a nossa razão para definir o fim de nossas ações. Nesse sentido, a liberdade só pode ser alcançada quando fazemos as coisas por elas mesmas. Daí chegamos a outro conceito: a heteronomia. Hetero = outro e nomos = leis, ou seja, seguir as leis dos outros. Não podemos agir só porque nosso corpo tem tal e tal desejo ou porque a sociedade pede tal e tal ação. Agir sem pensar é ser escravo sem saber.

Imagine que você está escolhendo sua profissão. Você quer ser médico. Mas qual é a sua motivação? Se você for um médico porque sua família (e a sociedade como um todo) prestigia essa profissão você está sendo um escravo. Isso é verdade, pois, no caso da profissão se tornar muito difundida e havendo médicos de sobra, o status da profissão diminui e perde o glamour. Mas você pode querer ser um médico, pois, na sua visão, é uma carreira que remunera bem. Porém, há a possibilidade de, depois que você já está exercendo a profissão, você ver que outra profissão remunera ainda melhor. Aí você vai querer mudar. Em ambos dos casos você será um médico escravo das circunstâncias e atenderá seus pacientes de maneira porca e desleixada (lembra da ultima vez que você foi ao pronto socorro de madrugada?). Isso é agir pelas leis dos outros, é heteronomia.

Para ser um médico livre seria necessário que sua motivação fosse pela profissão em si. Ser médico significa cuidar da saúde das pessoas e zelar pelo bem estar delas. E isso não depende do status da profissão ou da remuneração. Isso é uma questão de dever, de ser autônomo. Um bom médico criou para ele uma lei que ele usará todos os seus conhecimentos para salvar vidas independentemente das circunstâncias. Tanto é que há um juramento muito belo que todo médico faz.  

O Kung Fu transforma o vício em virtude

Ser um ser humano livre, que age por sua própria lei baseada na razão, não é tarefa fácil. É preciso combater nossas inclinações naturais e pressões sociais. É preciso ter autoconhecimento e reflexão. Ser livre e autônomo é criar para si uma lei que deve ser seguida a risca, independente de fatores externos. Porém, isso só é possível com uma enorme força de vontade.

Há diversas maneiras para treinar nossa força de vontade, o Kung Fu é uma das mais eficientes. Nessa arte marcial treinamos nosso corpo para resistir às tentações corporais e mentais. Nas aulas temos que seguir os comandos do instrutor a risca. Acontece que, muitas vezes, queremos beber água ou sentar para descansar as pernas. Mas não é sempre que o instrutor permitirá isso. No início, o aluno acha que a sensação de sede e cansaço são impossíveis de resistir, como se fosse uma ordem absoluta do corpo. É normal ele sentir isso, pois, na maioria das vezes, ele é escravo do seu próprio corpo. Mas com o tempo ele percebe que ele pode sentir sede e continuar treinando. Ele pode estar cansado e dar o seu máximo, na aula, no trabalho e nas suas relações de afeto. Isso não acontece da noite para o dia, primeiro há um momento de heteronomia, onde o instrutor dá os comandos, mas com o tempo o aluno desenvolve a autonomia e o instrutor se torna um guia. Um aluno faixa preta treina com ou sem a presença do instrutor, pois ele já está em um estado de autonomia. Por isso é preciso treinar por um bom tempo para realmente se libertar de amarras que não foram impostas por nós.

De maneira similar o Kung Fu nos faz abandonar hábitos da sociedade para criar hábitos de excelência. É comum para o brasileiro se atrasar, faz parte (gostando ou não) da nossa cultura. É possível contar nos dedos quantas vezes você foi ao médico e ele te atendeu no horário (ou quantas vezes você chegou na hora!), ou então quantas reuniões com os amigos que foram combinadas com horários específicos e nunca respeitados. Em uma academia de Kung Fu isso é inaceitável. Chegar com antecedência faz parte da vida marcial do aluno desde a faixa branca. Se ele não se tornar pontual ele nunca treinará direito.

Também acontece isso com os compromissos que criamos. Nós usamos nossas palavras de forma muito leviana. É muito comum um aluno dizer para o instrutor ao sair da academia: “até amanhã”. Para ele isso é uma cortesia, uma forma de se despedir e dizer que ele quer te ver de novo. Mas se o aluno não aparece no dia seguinte ele terá mentido para o instrutor. Exagero? Só para as pessoas que usam as palavras levianamente. Esse costume de falar e não fazer é tão culturalmente aceito que é de se estranhar que reclamemos de políticos que não cumprem suas promessas. Por isso, no meio do Kung Fu, os alunos mais antigos pensam duas vezes ao se despedir. Eles dizem “até breve”, ou “até daqui a tal tempo”. Esse cuidado é mínimo, mas tem um efeito gigantesco. Agora o aluno sabe que a promessa é dívida e que, se há alguma confiança entre os seres humanos, as palavras tem que ter a devida gravidade que elas merecem. Elas devem ter peso de uma lei criada autonomamente.

Com hábitos condizentes com o dever e o compromisso a pessoa passa a ter um cuidado com ela mesma. Ela passa a ter respeito com suas palavras, compromissos e desejos. Ela não deixará que a preguiça que ela sente, que a pressão da família e amigos faça que ela desista de algo que ela quer. Quantas vezes não abandonamos projetos e sonhos pois “faltava tempo”, “eu estava muito cansado” e ainda “fulano, pessoa que prezo tanto, não aprovaria”.

No final das contas, o Kung Fu nos ajuda a criar leis para nós mesmos que servirão de base para a realização de metas, objetivos e sonhos. Sem a autonomia é impossível ser livre. É só através de muita labuta e treino, paciência e perseverança que conseguiremos destruir as amarras externas à nossa vontade. Só assim para conseguirmos ser pessoas donas do nosso próprio destino.

Jonas Bravo
TSKF Padre Eustáquio

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