sábado, 23 de janeiro de 2010

Os tipos de discípulos no Kung Fu



Discípulos ou indicípulos: Tem duas caras, pela frente ele dá uma de bonzinho, aceita e concorda com tudo que o Mestre fala, por traz critica e faz do seu jeito e distorce as palavras do Mestre; freqüenta outras escolas que nada tem a ver com nossa linhagem, aprende com outros mestres e até mesmo com outros discípulos. Muitas vezes, relaciona-se com nossos inimigos. Pelas costas do Mestre diz que não concorda com ele em muitos aspectos. Para ele a grama do vizinho é sempre mais verde e acha que já superou o Mestre, freqüentemente é aquele que no futuro trairá o Mestre e cairá em desgraça por ter quebrado o vínculo existente entre Mestre e Discípulo de maneira inadequada.

O discípulo durão: Gosta de transmitir e se apresentar como uma pessoa séria, não gosta de brincadeiras, da dura nos alunos, manda pagar flexão, toma conta da técnica de todo mundo menos da dele mesmo, cobra dos outros, coisas pelas quais não passou sem conhecimento de causa, critica os demais instrutores e até seu próprio Mestre. No futuro não consegue segurar a barra, pois na verdade é frouxo, e acaba arrumando alguma desculpa para se desligar da nossa escola.

O falso discípulo: Quer aprender rápido, nunca falta, vem até nas aulas que não deveria vir, faz todos os cursos, na verdade deseja chegar rápido na faixa preta para poder se desligar, pois discorda das diretrizes da escola e deseja provar que está certo e que da sua maneira progredirá rapidamente e seu sucesso será garantido, pois é melhor que seu Mestre; freqüentemente é o discípulo que pula de galho em galho e no futuro será perito em coisa nenhuma.

O discípulo volúvel: Pensa que é esperto, mas na verdade é um mau-caráter. Usa um Mestre para aprender tudo o que lhe interessar. Depois, troca-o por um outro que não tenha nada para ensinar, mas que seja Chinês e, de preferência, famoso, que o mundo todo conheça, pois, assim, quando lhe perguntarem: “Quem é o seu Mestre?” Poderá responder, orgulhoso, que é Chim Ki Li, Bruce Li Ki, Fid Ki Mi, Kuai Chi Mim.

Se o Mestre chinês for falecido é melhor ainda, pois um Mestre morto não pode chamar a atenção do discípulo. Além do mais, se o Mestre estivesse vivo, ele poderia aceitar o estudante ou não. Caso não o aceitasse você não poderia declarar-se discípulo dele. Mas, se o Mestre for falecido, não terá como tornar público que você nunca foi aceito por ele como discípulo!... É muito conveniente.

O discípulo volúvel apresenta uma desculpa para sua atitude censurável. Afirma que o aprendiz deve usar os Mestres como quem sobe uma escada e, portanto, deve ir trocando de Mestres à medida que sobe. “É que já aprendi tudo o que podia com este, agora preciso de um mais avançado”, justifica. Ele usa seu Mestre como degrau para chegar noutro Mestre, tal como algumas mulheres de caráter duvidoso usam um homem de alguma influência para chegar noutro supostamente mais importante, e assim sucessivamente.

O discípulo volúvel freqüentemente é aquele que procura o Mestre do seu Mestre para caluniá-lo e poder treinar com ele, pois acha que assim se igualará com seu Mestre anterior na árvore genealógica.

Na maioria das vezes o Mestre que foi procurado, aceita o novo estudante, entretanto não lhe ensina nada, pelo contrário, pede que um de seus instrutores o ensine, esperando que este estudante aprenda uma lição. Mesmo assim o discípulo volúvel vai contar para todos que treina com aquele Mestre famoso, quando na verdade gostaria de estar treinando com seu antigo mestre, mas como é orgulhoso e sabe o que fez, tem vergonha e nunca mais vai conseguir olhar nos olhos de seu verdadeiro Mestre.

Noutras vezes o Mestre que foi procurado aceita o novo estudante, porque sabe que uma boa base lhe foi ensinada, e este estudante pode dar-lhe bons resultados e ele poderá dizer a todos que este é seu discípulo. Neste caso, nem este Mestre nem este discípulo merece o seu respeito nem sua confiança. Costumeiramente este tipo de Mestre conhece menos do que o próprio discípulo que adotou, e na verdade observa e copia a maneira com que seu novo pupilo treina, para assim obter o conhecimento do antigo Mestre de seu novo estudante.

O discípulo que mata o mestre: Acha-se o discípulo ideal, de quem falaremos mais tarde, mas não é. Nas Artes Marciais do Oriente há um provérbio que diz: o melhor discípulo é o que vai matar o Mestre. “Matar”, na maior parte das vezes, é simbólico, no sentido de enfrentar, opor-se, medir forças, tentar vencer o Preceptor. Se conseguir, pode matar a carreira profissional dele, ou, pelo menos, comprometê-la.
Tal procedimento destrutivo explica-se. É que, muitas vezes, o melhor pupilo, o mais esforçado, um dia, para mostrar a seu Mestre que aprendeu tudo muito bem, lamentavelmente quer provar que é melhor que ele. Então, desafia-o. Tudo é uma questão de ego. Felizmente, não é sempre, e não é forçosamente o melhor discípulo que vai aprontar.

Mas o Karma não perdoa. Todos os que agiram mal com seus Mestres pagaram caro por isso. A história registra muitos casos célebres. O repúdio dos demais instrutores exclui e isola o traidor. Todos pensam: quem trai seu próprio Mestre, o que não fará com seus colegas? Seus alunos raciocinam da mesma forma e perdem o respeito por ele. Finalmente, vítima do seu orgulho, falta de humildade e gratidão, termina execrado por todos. Passa a amargar uma carreira que não terá mais o mesmo brilho. Depois não adianta deplorar o sucesso perdido, o qual só teria sido possível caso contasse com o apoio e a recomendação do seu Mestre e de todos os seus colegas, discípulos dele, se não tivesse feito vergonha.

Via de regra, na verdade, este tipo de discípulo trabalhou para o Mestre, mas tinha baixo estima e complexo de inferioridade e era incompetente, e tenta provar o contrário, na maioria dos casos abrindo sua própria escola, e para não começar do zero, pois é incompetente, rouba os alunos de seu Mestre utilizando-se da influência e da edificação que seu Mestre lhe deu, e a única coisa que este discípulo consegue, é provar que realmente era incompetente, pois se não fosse, teria conseguido por seus próprios méritos. Este discípulo tem vergonha de olhar nos olhos de seus alunos, pois carrega o peso da culpa e teme que seus alunos enxerguem isso em seus olhos, quando está sozinho chora, pois não pode desabafar com ninguém.

O discípulo que não é de nada: É o tipo mais comum conhecido também como frouxo. Este tipo de discípulo é ótimo enquanto não for exigido ou enquanto não ocorrer nada fora de sua rotina. Quando encontra uma barreira ele encontra uma desculpa para não enfrentá-la, portanto este tipo de discípulo é indisciplinado e carente, nunca treina sozinho e está sempre defasado fisicamente e tecnicamente, se levar uma bronca ou uma advertência seu mundo desaba, acha que o Mestre não gosta mais dele, acha que é pessoal. Se ele perder o emprego ele pára, se sua namorada desistir dele, ele provavelmente entra em depressão e pára, se ele se machucar ele pára, se o Mestre não lhe adiantar a matéria ele pára, se seu amigo mudar de faixa e ele não, ele pára, se ele começar uma faculdade ele pára, se ficar doente ele pára, se quebrar um braço ele pára, se pagar flexão ele pára, se as aulas forem pesadas ele pára, se forem leves ele pára também, se a academia mudar de local ele pára, se ele for excluído de uma demonstração ele pára, se o Mestre não conversa muito com ele, ele pára. Este tipo de discípulo chega ao extremo de simular um problema para não enfrentar o exame de faixa preta, é o que chamamos de síndrome do exame. Então ele arruma um problema no joelho, uma lordose, uma escoliose, um curso, muito trabalho na empresa, um problema com o pai, um problema com a mãe etc., assim ele poderá desistir tranqüilo sem ter que passar pelo teste de resistência ou sem ter que lutar no dia do exame de faixa preta. Este tipo de discípulo é criança, ainda não largou a saia da mãe e ainda não consegue tomar decisões sozinho.

O discípulo espertalhão: É aquele que se intromete em tudo, pensa que sabe tudo, dão conselho aos colegas, fala do que não sabe como se soubesse, paparica o Mestre, oferece ajuda em tudo e presta todo tipo de favores ao Mestre, esperando que o Mestre de mole com ele e se sensibilize no dia do exame ou que possa treinar gratuitamente. Como fala demais, acaba não conseguindo fazer o que prometeu, e como o Mestre não deu mole, acaba ficando chateado. Na verdade é carente e espera reconhecimento, é por isso que acha que entende de tudo, pois já começaram muitas coisas, parando todas elas pela mesma razão, assim quando o Mestre continua firme, ele se desilude e imediatamente parte para outra busca, tendo esta nova busca como desculpa para não poder continuar a anterior. Quando chega no próximo lugar, diz que foi perito na coisa anterior e assim sucessivamente. Normalmente é um mentiroso, pois necessita parecer superior para que os outros possam ouvi-lo, mas quando percebe que não consegue acompanhar os demais e que os demais estão percebendo, arrumam uma boa desculpa para parar. Raramente ou nunca atingem a faixa preta.


O discípulo sem objetivo: É igual ao aluno inconsistente. Este tipo de discípulo nunca progride, provavelmente nem sabe porque está treinando. Normalmente não tem um objetivo claro, assim, vive um eterno conflito entre treinar ou não treinar, vir ou não vir às aulas. Vive inventando desculpas, uma hora é porque estava sem tempo, outra é porque estava doente, outra porque o tempo estava quente, outra porque o tempo estava frio, outra é porque estava chovendo, algumas vezes é porque estava sem carro e outras porque havia transito, ou seja, este tipo de discípulo só aparece na academia se todos os faróis da cidade estiverem verdes, sua com condição física e técnica sempre estão defasadas dos demais discípulo.

O discípulo inflexível: É cabeça dura, costuma não fazer o que o Mestre sugere, desobedece a ordens expressas. São avessos a mudanças, e por isso mesmo vivem dando cabeçada em suas vidas particulares. Quando aprendem uma técnica de uma certa maneira, demoram a melhorar, pois são muito resistentes.

O discípulo ideal: Felizmente é a maioria. São aqueles que buscam sinceramente o desenvolvimento próprio e do seu estilo. Buscam o que lhe faltam, e não criticam por não possuir. Conseguem distinguir o momento certo para que possam ter amizade com seu mestre, sem que isso interfira em sua prática. Percebem a importância do tempo do seu mestre e do seu próprio. Assumem o que não sabe, e assim se aproximam mais da sabedoria. Valorizam e guardam o que aprenderam. São sinceros e humildes e sempre estão dispostos a ajudar o seu Mestre.