quinta-feira, 19 de julho de 2012

O sonho de Jiao Li - Parte I



Jiao Li era um dos muitos soldados do exército de Bao Cheng naqueles tempos difíceis. Todas as tropas viviam em movimento, defendendo o reino de Yi e também atacando os reinos de Er e Sun, tradicionais inimigos que buscavam anexar os reinos uns dos outros.

Assim, o exército que acompanhava Bao Cheng estava sempre em mudança, vivendo em acampamento as margens de algum povoado durante uns meses, mudando-se para o deserto na primavera seguinte, para voltar ao clima úmido do sul no verão e viver sentindo o cheiro do mar. A mudança era constante para todos. Nas paradas, novos soldados eram recrutados, promoções de patente aconteciam e os mais velhos eram aposentados e enviados de volta para casa, com presentes para ajudar numa velhice tranquila.

Olhando de fora, a vida não era má com Jiao Li. Dono de um bom Kung Fu, sabia movimentar muito bem a lança e era bom com a espada também. Além disso sabia se virar bem usando apenas as mãos esguias tanto para abater os inimigos, como para derrubá-los. Isso o salvou de várias encrencas no campo de batalha. Mas Jiao Li estava infeliz há algum tempo.

Ele queria mais da vida. Queria poder usufruir do bom vinho que era servido aos generais, depois das vitórias no campo de batalha. Queria um soldo maior para poder comprar uma boa casa em sua vila natal. Desejava comandar seu próprio batalhão e responder apenas à Bao Cheng e _por quê não?_ estar no lugar do próprio Bao Cheng.

Mas como chegar lá? O líder de seu batalhão, Deng Wu, não parecia gostar muito dele e vivia lhe dando broncas a respeito de detalhes e coisas de menor importância, mesmo com Jiao Li sendo o melhor do grupo no campo de batalha! Era muita injustiça neste mundo, pensava Jiao Li todas as noites, antes de adormecer sonhando com uma chance de chegar onde queria e todas as coisas que poderia usufruir.

Naquela noite, nas imediações da vila de Xiao Ling, próximo ao lago, ele teve um sonho.

Ele não era mais Jiao Li, o soldado. Ele era o capitão Jiao Li, responsável por vários batalhões, respondendo diretamente ao general Bao Cheng!

Resolveu imediatamente fazer uma vistoria das tropas no acampamento, para começar a mudar algumas coisas que sempre quis. O primeiro a encontrar foi o soldado que cuidava da limpeza de todos os tecidos das tropas. Era um trabalho chato. Encontrou-o à beira do lago, cuidando dos panos do acampamento.

Sabendo que era um trabalho penoso, o capitão Jiao Li deu-lhe folga por uma semana daquela tarefa, deixando-o voltar para ela quando estivesse mais descansado e a fim de cumprí-la. Deixar todos os panos brancos novamente era algo muito trabalhoso, apenas para ficarem sujos novamente.

Após isso, encontrou na porta de uma tenda o oficial menor que cuidava da administração de um batalhão. O oficial cuidava das presenças dos soldados em um pergaminho, além de controlar as despesas do grupo quando compravam suprimentos e outros itens nas vilas próximas. Era um trabalho que não levava muitas
horas e não era exepcionalmente difícil, mas não deveria ter falhas, por isso o tempo consumido com a atenção era redobrado.

Jiao Li mandou que trouxessem o vinho dos oficiais para o homem, para que ele tivesse algum alívio do trabalho árduo e pudesse descansar a mente antes de voltar aos pergaminhos. Jiao Li
sabia do valor do relaxamento durante um trabalho difícil...

Terminando sua ronda, Jiao Li avistou o homem que cuidava do café da manhã de seus batalhões. A primeira refeição dos soldados era relativamente simples: arroz na tigela, carne cortada em bifes e um pão. O cozinheiro deveria acordar mais cedo que todos no acampamento, no começo da hora do Coelho (05h00) para aquecer e servir todos os itens que estavam prontos desde o dia anterior.

O homem fazia seu trabalho de bom grado, mas Jiao Li achava um crime que ele tivesse que acordar antes do sol nascer para deixar tudo pronto para os soldados. Mandou então seu secretário divulgar uma nota, dizendo que a partir daquele dia, o cozinheiro acordaria no começo da hora do Dragão (07h00) para preparar o café da manhã, enquanto os soldados poderiam deixar suas tendas somente quando a hora da Serpente começasse (09h00).

O sonho de Jiao Li mudou de repente, como se um vento frio fora de época levantasse uma poeira espessa diante de seus olhos.

FIM DA PARTE I