terça-feira, 27 de março de 2012

Alongamentos: uma viagem ao interior dos músculos


Hoje vou desenvolver um tema para os leitores um pouco mais técnico, mas com uma linguagem facilitada. Vou explicar como funcionam os exercícios de alongamento, e para isso devo começar falando sobre algumas estruturas dos nossos músculos esqueléticos.

Nosso corpo é formado por três tipos de músculos: o Cardíaco (que representa a estrutura do nosso coração e cumpre a função de bombeamento se sangue), o Liso (que reveste a maioria de nossos órgãos internos e tem a função de realizar movimentos involuntários, podem ser encontrados no estômago, esôfago, artérias, intestino, entre outros) e o Esquelético, que é o que vai nos interessar nesse texto.

O músculo esquelético é encontrado, como o nome diz, aderido aos ossos do corpo humano. Desempenham uma função voluntária de movimentar as diversas partes de nosso corpo, como flexionar o cotovelo, estender o joelho, rotacionar o pescoço etc.

Fibras dos Músculos
Este tipo de músculo é formado por pequenas estruturas chamadas fibras musculares, que juntas formam os feixes de fibras. Essas fibras são estruturas bem finas e alongadas que se projetam de uma extremidade a outra do músculo. Para entender melhor, imaginem vários elásticos. Corte-os para obter pedaços compridos, e não anéis. Agora os prenda pelas extremidades. Isso representa um feixe de fibras musculares, e cada elástico uma fibra muscular.

Fusos Espiralados nas Fibras
Envolvendo algumas dessas fibras, existem estruturas espiraladas não elásticas (que vão representar linhas de costura entrelaçadas em alguns elásticos do feixe). São chamadas de “fusos neuromusculares” e quando os músculos sofrem um alongamento, eles se desespiralam, pois o tamanho das fibras aumenta. Quando isso ocorre, automaticamente, os fusos mandam mensagens ao nosso sistema nervoso de que nosso músculo está sendo forçado a se alongar mais que o normal, e o sistema nervoso central retorna uma resposta também imediata: a dor.


Então é por isso que quanto mais a amplitude do alongamento maior a dor? Sim, isso acontece porque os fusos de desespiralam cada vez mais, mandando mais e mais informações para o cérebro de que o músculo está passando por condições de alongamento que normalmente não passa e o mesmo envia uma sensação de dor cada vez maior, a fim de proteger a estrutura muscular.

Quando alongamos com uma amplitude muito grande, as fibras neuromusculares (nossas linhas de costura) passam a desempenhar outra função que não de promover a dor. Elas, involuntariamente, fazem nossos músculos contraírem impedindo o alongamento excessivo.

Existem algumas formas de enganar a função de contração muscular gerada pelo fuso. Esse método é o mais eficiente para se aumentar a mobilidade ou amplitude de uma articulação (flexibilidade do músculo). Chama-se FNP (facilitação neuromuscular proprioceptiva). O FNP se baseia em alongar um músculo até determinada amplitude da articulação (com auxílio de um professor), permanecer por um tempo de forma estática e forçar uma contração voluntária no sentido inverso do alongamento. Tal contração voluntária gera um desequilíbrio na função de nossos fusos, impedindo que os mesmo “avisem” o sistema nervoso central de que o músculo está sendo alongado. Logo após a contração, aumenta-se a amplitude e este processo volta a ocorrer duas ou três vezes até chegar ao máximo alongamento muscular.
 
O FNP é o tipo de alongamento mais perigoso para romper algumas estruturas do músculo, pois uma vez descontrolada a função dos fusos neuromusculares, atingimos amplitudes maiores do que podíamos e isso pode gerar lesões. (imaginem que nosso feixe de elásticos se esticou tanto que alguns dos elásticos se romperam, e as linhas de costura não agüentaram a tensão e também quebraram).

Essas lesões podem afastar um praticante dos treinos por alguns dias e isso não é interessante. É importante que esse tipo de alongamento seja feita sempre com auxílio de um professor, nunca sem orientação.

Existem outros tipos de alongamento para aumentar a amplitude articular (e o ideal é que os alongamentos para aumentar a flexibilidade sejam feitos em um dia específico, ou antes de exercícios de força, pois se for feito depois, pode prejudicar o tecido muscular aumentando o tempo para a recuperação do músculo).

Os alongamentos podem aparecer também no aquecimento, mas esses não têm como objetivo principal buscar a flexibilidade, mas sim preparar o músculo para a atividade seguinte. Esse tipo de alongamento não deve ser forçado em grande amplitude, mas sim ao natural, sem que haja dor.

No geral a flexibilidade traz muitos benefícios específicos (de cada modalidade, por exemplo um chute bem alto) e gerais (que facilitam o dia-a-dia, como calçar um tênis ou coçar as costas). Vale lembrar que é uma capacidade do ser humano, e por ser uma capacidade, pode ser treinada e se tornar um dos objetivos de treino.


Agora vamos pra academia, e comecem a treinar!!!


Sandro Conte Febras

Referências:

- GUISELINI M. Aptidão Física, saúde, bem-estar – Fundamentos teóricos e exercícios práticos. Phorte, São Paulo, 2006;

- GUISELINI M. Exercícios aeróbicos – Teoria e prática no treinamento personalizado e em grupos. Phorte, São Paulo, 2007;

- WILLIAM D. MCARDLE & FRANK I. KATCH & VICTOR L. KATCH. Fisiologia do Exercício: Energia, Nutrição e Desempenho Humano. Guanabara Koogan, 2008;