quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Ovomaltine com pera

Antes que alguém diga alguma coisa, sim eu sei que nenhuma pessoa é igual a outra e a TSKF foi desenhada pensando exatamente nisso. Procuramos tratar a todos de maneira diferente, mas isso não significa que não vamos trabalhar pra transformar moloides em homens de fibra forjados a fogo e ferro. Isso é nossa obrigação e nosso dever enquanto mestres de Kung Fu e aqueles que não forem se fortalecendo e acompanhando ficarão pelo caminho. A peneira do Kung Fu tem buracos muito largos.

As pessoas nos procuram por muitas razões e uma delas é pra se tornarem mais fortes e mais disciplinadas para enfrentar a vida, entretanto, na maioria das vezes, no primeiro aperto que damos, a pessoa choraminga faz biquinho e vai embora.

Não sei por qual razão, mas de trinta ou quarenta anos pra cá foi sendo criada uma geração de frouxos. Eu costumo dizer que a quantidade de frouxos subiu assustadoramente de alguns anos pra cá. Os pais fazem tudo que os filhos querem e eles se transformam em moloides. Eles acham que se não fizerem tudo que seus filhos querem eles crescerão revoltados. Na verdade o que a maioria da molecada está precisando mesmo hoje em dia é de uma boa surra de cinto daquelas que deixa vergão.

Precisamos de homens de verdade, homens que não se abalem por qualquer coisinha, homens que não entrem em depressão porque perderam o seu emprego, sua mulher ou sua namorada. Quando estou falando de homens estou falando de seres humanos homens e mulheres. Precisamos de homens de palavra, homens honestos, leais e de confiança.

Você sabia que quase 100% dos nossos alunos que reprovam no exame de faixa desistem da academia?. Pois é, da vontade de colocá-los no colo e dar umas boas palmadas. Alguns de vocês devem estar dizendo “ ei ei ei isso não é pra mim, eu sou forte eu não sou assim” , pois bem já tive faixas pretas primeiro tuan que desistiram porque reprovaram no exame. Sei sei, você é forte enquanto não acontecer com você, conheço bem o seu tipo.

Me da raiva de ver os pais criando moloides. Recentemente uma garotinha reprovou no exame de faixa e saiu chorando. O pai todo cheio de sabedoria veio correndo e a abraçou dizendo “vamos embora daqui, vamos treinar lá naquela outra academia que lá você vai mudar de faixa” . Senti pena daquela garotinha.

Estamos aqui pra forjar gente forte, gente de fibra, gente de palavra, gente com o espírito do guerreiro, que não se abala por nada e que morre de pé. As pessoas hoje em dia vivem falando no espírito marcial, espírito do guerreiro, e bla bla bla, sem nada saber a esse respeito, então, eu vou contar alguns casos ocorridos comigo ao longo desses trinta e poucos anos treinando Kung Fu.

Na época que eu treinava Kung Fu, eu treinava de segunda, quartas, sextas, e sábados a tarde na aula especial que ia das 14h00 até quando o mestre quisesse ou seja, não tinha hora pra terminar, as vezes terminava as 16h00 outras vezes as 18h00 e algumas vezes lá pelas 22h00 ou mais, num desses treinos eu perdi quatro quilos. Como eram os treinos eu conto algum dia pra vocês. Antes que eu me esqueça, nessa mesma época eu treinava ginástica aeróbica as terças e quintas e aos domingos eu sempre ia correr dez quilômetros na USP com um amigo meu.

Durante aquela época e com aqueles treinos duríssimos, desloquei o ombro direito três vezes. Você pensa que eu parei de treinar. Não não não, eu pedi que minha esposa fizesse uma tipóia de elástico pra que eu pudesse prender o ombro e ele não deslocasse, e ia treinar normalmente. E não fique ai pensando que eu não fazia as flexões de braços não. Quem já deslocou o ombro sabe que da primeira vez você vomita de dor.

Nesse mesmo período, jogando futebol de salão pela empresa onde trabalhava torci feio o pé e fui ao ortopedista e ele me engessou. Ocorre que no domingo, meu amigo passou em casa pra irmos correr nossos dez quilômetros na USP. Como eu tinha combinado com ele, e não gosto de descumprir uma palavra, falei pra ele esperar um pouco, então, peguei uma faca, serrei o gesso e fui correr os dez quilômetros. Palavra é palavra.

Numa outra época, eu não estava me sentindo muito bem, mas, meu amigo passou em casa pra irmos correr, então eu fui. No meio da corrida, comecei a ter um mal estar e comecei a peidar muito, isso mesmo pode rir, mesmo passando mal resolvi terminar os dez quilômetros. No outro dia fui ao banheiro e defequei como borra de café, então, fui ao médico. Sabe o que ele me disse? Disse que eu estava com hemorragia interna e que eu não podia sair dali sozinho. Falei que ia pra casa, e ele disse que não. Fim da história, meu amigo teve que vir buscar o meu carro, e eu fiquei internado por uma semana.

Em 1996 eu montei a primeira TSKF. Nessa época eu trabalhava das 8h00 às 17h00, saia correndo do serviço e entrava na academia pra dar aulas sozinho as 18h00, que era o primeiro horário. Como eu montei a primeira academia sozinho estando trabalhando o dia todo já é outra história pra outra ocasião. Ocorreu que um mês depois que eu abri a academia eu fui jogar futebol e pisei num buraco no gramado e tive uma semi-ruptura do Tendão de Aquiles. Sabe quanto tempo eu demorei para sarar dessa lesão? Sete anos, Sabe quantas vezes eu deixei de dar aulas por causa disso? Nenhuma. Sabe quantas vezes eu reclamei para algum aluno que estava lesionado? Nenhuma. Sabe de uma coisa, eu não tinha para quem reclamar, eu só podia fazer duas coisas, desistir ou continuar.

Em 2003 por conta do campeonato mundial de Kuoshu que iria acontecer no Brasil eu fui convidado pra organizar uma demonstração com cem alunos. Até aí maravilha. Eu adoro Kung Fu e gostei da ideia. Foi assim que começaram os treinos no Parque do Ibirapuera, e continuam até hoje com o pessoal do nosso ShowTeam. Bom, vocês devem estar pensando, mas o que tem isso a ver com o papo até agora. Ocorre que eu tinha hemorroidas, e naquele mês eu estava verdadeiramente atacado. Minha hemorroida estava do tamanho de uma jabuticaba, e provavelmente da mesma cor e doía para caramba por causa do frio do mês de julho. Os treinos no Ibirapuera eram as oito horas da manhã, então eu levantava as seis horas, esquentava água, colocava numa bacia, colocava permanganato de potássio, e fazia meia hora de banho de acento pra amenizar a dor. Num certo dia estava eu fazendo o banho de acento, e quando levantei da bacia percebi que no fundo havia uma pelota esquisita parecida com fígado, então eu enfiei a mão na bacia e peguei aquele troço que era uma coisa nojenta parecida com uma gelatina de fígado. Era sangue coagulado da minha hemorroida que havia estourado. E agora, eu tinha duas opções, largar o pessoal me esperando no Ibirapuera e simplesmente não aparecer, e depois dizer que estava doente, ou ir daquele jeito mesmo. Eu escolhi a segunda opção, o problema é que eu estava sangrando pelos fundilhos. O que eu fiz foi o seguinte: Pedi para minha esposa um absorvente, e lá fui eu dar o treino como uma mulherzinha, afinal de contas, palavra é palavra. Pergunta se alguém percebeu minha cara de sofrimento e se eu reclamei de alguma coisa. Não senhores, eu não tinha pra quem reclamar, temos que ser fortes e homens de palavra. É por essas e outras que jamais aceito desculpas de ninguém, e sempre digo “as desculpas mesmo quando verdadeiras não levam a nada”.

Da próxima vez que você for choramingar ou dar uma desculpa, pense muito bem, e decida se você quer ser um homem honrado, de fibra e de palavra, ou se vai preferir tomar o seu ovomaltine com pêra e chorar no colinho quente da mamãe.