sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A força do Mito

Participo regularmente de discussões no orkut sobre Kung Fu e de tempos em tempos, às vezes com intervalos mais longos, às vezes com intervalos mais curtos, aparecem discussões acaloradas em torno de Bruce Lee.

Basicamente, existem dois lados da discussão, os que acreditam que Bruce Lee foi o pai do MMA e um lutador de verdade com pleno uso de suas capacidades. Por outro lado, existem os que acreditam que Bruce Lee foi um ótimo artista marcial e ator, mas não um lutador, do tipo que sobe em ringues ou aceita lutas. E ganha.

Apesar de pertencer ao segundo grupo (os céticos), tento ver as coisas em perspectiva neste post.

A quantidade informações, entre fotos, vídeos, áudio e livros sobre Bruce Lee é gigantesca! Entretanto não temos registros de lutas profissionais, ou mesmo amadoras, de Bruce Lee. Ele nunca lutou em um campeonato e nunca lutou contra ninguém. Ok, ok, antes que os fãs do primeiro grupo comecem a me xingar, digo que nunca houve provas, fatos ou dados a respeito disso. Mas com a quantidade de informações que podem ser obtidas na internet, deixo em aberto para mudar esta afirmação se os fatos e dados mostrarem isso. Naturalmente, fatos e dados que tenham uma fonte confiável, auditável e, principalmente, neutra.

Mas não quero escrever sobre o que Bruce Lee foi ou não foi, mas sim o que faz as pessoas acreditarem que ele foi. Isso se chama necessidade do Mito.

Um Mito é quando as pessoas adotam algo como verdade, mesmo sem base ou fundamento objetivo e científico. O Mito possui uma forte carga simbólica para a comunidade que o criou e pode servir como referência de crenças ou até mesmo costumes. Bruce Lee foi tão grande para o Kung Fu que acabou se tornando um Mito neste meio.

E por quê as pessoas precisam do mito de Bruce Lee? Porque este é o único mito acessível à todos, inclusive para aqueles fora do Kung Fu. Wang Lang e suas lendas estão perdidas no passado distante. Wong Fei Hung tem sua história relativamente bem documentada, mas apenas para aqueles que verdadeiramente querem saber sobre o Hung Gar. Kwan Kun exige um mínimo de esforço em pesquisar a história. Bruce Lee é pop. Está em camisetas, em referências de filmes e animações, seus próprios filmes, livros, posters.

Bruce sintetiza a força com velocidade, técnica com conhecimento das teorias, treino do corpo em conjunto com o treino da mente. Treinar no irreal para se destacar no real. Algo que muitos praticantes de Kung Fu querem. Por isso é natural que esse movimento de mitificação aconteça. As pessoas precisam de um herói, um ídolo. Alguém que seja a imagem daquilo que se deve buscar no Kung Fu.

O mito é importante para que a pessoa tenha um norte. Ele serve como uma bússola que orienta o caminho em uma trilha não totalmente conhecida ainda. Mas, quando se conhece por onde anda, a bússola serve como uma fonte de consulta eventual, uma referência a ser observada em momentos de dúvidas e questionamentos. Da mesma forma, um mito deve ser abandonado quanto a pessoa toma consciência de seu próprio caminho e sabe o que é preciso para seguí-lo. Assim, o mito deixa de existir e passamos a ver através dele.

É como nosso querido Papai Noel. Começamos a vida acreditando nele. Passamos depois a não mais acreditar nele. Um belo dia, passamos a ser ele ou fazer o papel dele. Tudo para que as crianças saibam que bons comportamentos merecem recompensas.