quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Quebrando Pontes

Há um trecho no livro "Kung Fu – Caminho para a Saúde Física e Mental" do qual eu gosto muito. Fala sobre quebrar suas pontes.

Antigamente, muitos generais de exércitos quebravam as pontes das quais ligava os soldados às casas deles, assim o único caminho a seguir seria adiante, não haveria a menor chance de retroceder. Mas como isso se aplica ao Kung Fu?

Uma das palavras chaves disso é comprometimento. É certo que o seu instrutor com certeza já falou disso alguma vez ao final de alguma aula ou em particular. Ao se comprometer em passar por alguma situação, seja fazer exame, uma demonstração, participar de campeonatos entre tantas outras coisas dentro do Kung Fu, você faz um elo de compromisso entre você a situação. Esse elo, se for respeitado, fará você arranjar forças suficientes até que sua missão seja então cumprida.

A cilada nessa história é: muita gente acaba gerando esse elo, e pela dificuldade, medo ou vergonha acaba quebrando-o para continuar na zona de conforto, ou seja, no fundo, não quebrou sua ponte.

Procure seguir no Kung Fu compromissos dos quais você não volte atrás até alcançá-lo. Seja algo simples como cumprir o horário três vezes por semana ou até algo mais elaborado, como participar de um número X de categorias no campeonato, ou quem sabe participar da cerimônia de abertura do mesmo.
Particularmente eu sempre faço uma coisa aos sábados: sempre que saio da aula de arbitragem, eu deixo minha mochila com meu uniforme e diversas coisas necessárias do meu dia-a-dia na Matriz, assim, independente do compromisso que eu tiver Sábado à noite, Domingo de manhã eu tenho que estar lá para fazer aula de instrutor, do contrário não tem como eu pegar meus pertences para Segunda-feira.

E isso não só no Kung Fu, mas no seu dia-a-dia. Quebrar as pontes para falar em público, quebrar as pontes para perder a timidez na escola, quebrar as pontes para passar num vestibular. Se você apostar em você mesmo e correr atrás, as chances sempre estarão a seu favor, independente da situação, não acha?

Vinícius Miranda - TSKF Casa Verde

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Até onde você quer chegar?

Creio que a coisa mais importante para quem começa a treinar, é definir um objetivo, uma meta, onde se quer chegar.

Isso pode ter a ver com a próxima faixa, pode envolver chegar à faixa preta, pode ser tornar-se um campeão. Na verdade pode ser qualquer coisa. Mas para funcionar deve ser algo mensurável e renovável.

Objetivos que não tenham estas duas qualidades não funcionam por muito tempo, pelo que vejo. Vejamos:

Mensurável
Tem que ser algo que possa ser medido e contado. Vamos supor que o objetivo seja atingir a faixa preta. Você pode medir cada passo para chegar até lá e você tem como medir se atingiu este objetivo (basta olhar para sua cintura a cada final de aula).
Outro exemplo, seria perder 5 quilos. Mas cada um dos casos acima pode ser uma armadilha perversa de nossa própria mente, como falarei a seguir.

Renovável
Um objetivo tem que ser algo que possa ser atualizado. E é aqui que pode se esconder a armadilha da nossa mente. Vamos voltar ao objetivo de chegar na faixa preta. Imagine que uma pessoa atingiu este objetivo. Durante algumas aulas ela vai curtir o "gostinho" da vitória pessoal mas, passado um tempo, ela vai se perguntar o que ainda está fazendo ali, se há tantas coisas legais fora da academia para se fazer e ela já está onde ela gostaria de estar.
Assim, ela não renova seu objetivo e, fatalmente, vai parar de treinar, sem nem mesmo saber direito porque está fazendo isso.
No nosso outro exemplo, isso fica ainda mais claro: ao perder os 5 quilos indesejados a pessoa pensa: "pronto, consegui! Agora vou aproveitar meu corpo em forma."

Neste caso, o engano reside no fato da pessoa achar que "em forma" é um status que se atinge um vez e está garantido. Mal sabe ela que "em forma" é um estado que precisa ser cultivado dia a dia, exatamente como um bom hábito, onde o treino de Kung Fu regular é um ótimo veículo para isso.

Assim podemos ver que um objetivo mensurável mas que não seja renovável pode ser ruim no longo prazo. Daí a importância de mantermos estes dois pilares em nossos objetivos.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Prioridades

Tenho visto, ao longo dos meus 4 anos como instrutor, uma série de pessoas que desistem da academia por uma razão interessante: estão trabalhando demais.

Longe de mim questionar a agenda profissional de cada um, mas quero levantar a questão: vale a pena adotar uma escala de trabalho com uma quantidade de horas absurda?

A resposta seria a óbvia: "claro que não, mas o que posso fazer?". Na verdade você pode fazer muita coisa. Durante um bom tempo, eu mantive meu trabalho "normal" como CLT e comecei minha vida como instrutor.

Neste meio tempo, cuidei de alguns projetos complexos no meu trabalho "normal". Um deles exigia a implantação de um sistema para cerca de 2.000 estações de trabalho, gerando não apenas a mudança técnica, mas a necessidade de mudança de procedimentos feitos por algo em torno de 5.000 pessoas, divididas entre os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

Ao longo do tempo, adotei alguns hábitos que me ajudavam a sair dentro do meu horário normal:

1- Eu sempre chegava no horário (quando possível, mais cedo)
Como todo mundo trabalhava até muito tarde, era comum chegarem atrasado no dia seguinte. Se eu queria fazer diferente, deveria começar diferente pelo início do dia e não pelo final (do tipo: "hj ninguém me pega, vou embora no horário")

2- Reuniões e conferências com horário de início e de fim
Eu sempre ia para reuniões sabendo o horário que iriam começar e o horário que iriam terminar. Claro que eram apenas previsões e, como bons brasileiros que somos, sempre tinham atrasos. Mas verificar isso com o organizador da reunião, ajuda a estabelecer um ritmo para a coisa e não fica tão solto, como aquelas reuniões intermináveis de 5 ou 6 horas.
Todas as reuniões que eu organizava eram de 1 hora de duração, todo mundo recebia a pauta da reunião com antecedência e as "lições de casa" que cada um deveria trazer. Mais tempo de reunião que uma hora, considero uma perda de tempo.
Voltando à questão dos atrasos, eu trabalhava com um notebook eventualmente, isso me permitia continuar trabalhando na sala de reunião até que ela começasse. Quanto eu não tinha o notebook disponível, usava meu caderno para anotar os próximos passos dos projetos e coisas que precisaria fazer na sequência da reunião.
Em tempo: eu jamais fazia outra coisa no meio de uma reunião, que não fosse me focar nela.

3- Não perca tempo no almoço
Eu tinha alguns colegas e chefes que sempre davam uma "esticadinha" na hora do almoço e faziam, no lugar da uma hora tradicional, uma hora e meia de almoço, "compensando" isso depois do horário.
Eu escolhia comer em lugar mais vazios e usava apenas 45 minutos do meu tempo total, para voltar mais rápido ao trabalho. Além disso, procurava almoçar 30 minutos antes ou 30 minutos depois do horário de pico de onde trabalhava (entre 13h00 e 14h00). Assim enfrentava menos filas no restaurante, no café e nos banheiros depois.

4- Você não é um criminoso
Na primeira vez que sai no meu horário, minha chefe olhou para mim com uma cara de inquisidora e fez aquela pergunta: "Já vai?". Eu poderia dar milhões de desculpas em voz bem baixinha para justificar minha saída, mas resolvi encarar de frente o rojão e disse: "Já fui".
Comoção geral na área. Alguém indo embora no horário!
Milagrosamente não fui demitido no dia seguinte.

5- Esteja pronto para ser o diferente
Após começar a sair no horário, passei a ser muito mais cobrado pelos meus projetos, especialmente na última hora de trabalho. Felizmente, os seres humanos (e chefes não são exceção) seguem padrões de comportamente parecidos e tendem a agir de forma similar dia após dia. Como, conhecendo meu trabalho e conhecendo meu chefe, eu já sabia de forma geral o que ele ia me pedir ao longo da última hora, eu deixava tudo pronto antes (lembra que eu chegava mais cedo do almoço?). Quando ele me pedia algo, eu já tinha pronto ou bem desenvolvido de forma que poderia entregar e ir embora no horário. (não sem um cara de espanto como prêmio).

A lista poderia ser mais longa, mais vou ficar por aqui. O importante é que, neste meio tempo, cuidei do meu trabalho com projetos importantes, cuidei do meu casamento e abri 3 academias com sócios fabulosos.

Talvez por isso eu me preocupe com o fato de ver pessoas que não treinam ou deixam de cuidar de si mesmas porque estão trabalhando muitas horas por dia. É tudo uma questão de prioridades. E não estou dizendo que todos devem passar a sair mais cedo todos os dias e fazer uma revolução contra seus chefes. Estou falando sobre reservar, ao menos, um horário para fazer uma hora de aula, três vezes por semana.

Você deve ser sempre sua primeira prioridade. Chefes vêm e vão, assim como empregos. Mas você vai ter que conviver com você mesmo a vida toda.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Resistindo a Resistência

Nosso último teste em cada exame é o teste de Resistência, onde o aluno deverá ficar na postura do cavalo, com os dois braços à frente, por um tempo determinado, de acordo com a sua graduação.

Muitos (eu inclusive) consideram este teste especialmente difícil, uma vez que ele é realizado após o corpo já estar com um certo nível de fadiga. Mas na verdade, creio que o principal problema seja outro.

A Resistência é um exercício físico e mental ao mesmo tempo. Por mais forte ou musculoso que seja seu corpo, a estrutura vai fadigar em um determinado momento. Podemos dizer que a "energia do músculo" acaba e a sensação de queima se apodera das pernas.

A partir deste ponto é que começamos a entender um pouquinho mais o que é ser um Artista Marcial. É a mente que determina a continuidade na posição, apesar do corpo reclamar e pedir descanso. Fomos geneticamente programados para procurar preservar a nossa estrutura corporal. Se colocamos a mão no fogo, nosso reflexo age antes para se afastar do fogo, antes de pensarmos racionalmente. Em escala menor de "reflexo", quando nossas pernas cansam, nosso corpo pede para que descansemos. Pede para que pare o que está gerando o cansaço.

Mas nossa mente sabe onde quer chegar e que podemos fazer muito mais do que a nossa limitação corporal encerra. Por isso, aqueles que tem uma mente focada em um objetivo específico conseguem ficar o tempo necessário de sua faixa, ou até mais. A dor é suportável. O desconforto é suportável. O suor nos olhos é suportável. Desistir sem ter feito realmente o seu melhor, até o limite, é que é insuportável.

Voltando ao aspecto físico, é importante lembrar que a resistência deve ser feito com uma distância entre as pernas confortável. Este "confortável" varia bastante de pessoa para pessoa. Pessoas mais esguias, tendem a ficar confortáveis com uma distância grande entre as pernas. Pessoas mais atarracadas, tendem a ficar confortáveis com uma distância menor entre as pernas. Claro que a distância maior ou menor não significa deixar a postura incorreta, por isso, sempre busque a orientação do seu instrutor.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Taolu ou Kati?

O termo taolu pode ser traduzido como rotina ou forma. O termo kati não existe em chinês, portanto não tem tradução. Acredita-se que o termo kati foi usado pelos primeiros mestres chineses que se estabeleceram no Brasil para explicar que um taolu era parecido com um Kata de artes japonesas, mas não igual. Devemos lembrar que a comunidade japonesa no Brasil é mais numerosa e mais antiga que a comunidade chinesa, portanto, tornou-se a base de referência para toda cultura oriental para os brasileiros.

Vejam que de maneira alguma isso é uma crítica ou censura para aqueles que ainda usam o termo Kati. Na verdade, podemos dizer que foi uma solução simples e fácil para adaptar a linguagem do Kung Fu em nosso Brasil e tornar a adesão à ele mais tranquila. Ainda mais se lembrarmos que as facilidades de internet e acesso à outras fontes de informação eram muito, muito diferentes naquele tempo.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

I amar prestar aen

Neste final de semana tivemos mais uma rodada de exames na Matriz. Além disso, atendento aos pedidos da minha patroa, assistimos novamente a trilogia de "O Senhor dos Anéis", todos na versão extendida.

Ok, ok, sei que são fatos aparentemente que nada têm em comum...Mas algo me chamou a atenção no final do último filme, "O Retorno do Rei"...e não foi a Liv Tyler.

NOTA IMPORTANTE: SE VOCÊ NÃO ASSISTIU O FILME E/OU LEU O LIVRO, ABAIXO CONTÉM SPOILER! (mas quem não viu ainda???)

Após a destruição do Anel, ainda ao pé da Montanha da Perdição, é possível ver um Frodo extremamente aliviado. Naquele momento, ele estava com sede, fome, passando um calor absurdo, com as vias respiratórias quase bloqueadas por cinzas e poeira e sem banho (eca). Ainda assim, ele estava aliviado. Tudo pelo fato de ter cumprido sua missão. Ainda em Valfenda (no primeiro filme), ele havia assumido o compromisso e dado a sua palavra que levaria o Anel para ser destruído e assim o fez. Ele concluiu algo que começou.

Cada um em sua aventura, todos os alunos que fizeram o exame de faixa concluíram mais uma missão. Esta missão cumprida levou à uma nova: para alguns amadurecer as técnicas com total foco e para outros começar uma nova etapa da jornada dentro do Kung Fu.

Mas outra cena me chamou bastante a atenção no mesmo final do filme. Quando o grupo estava nos Portos Cinzentos, onde Bilbo, Gandalf, Galadriel, Celeborn e Elrond partiriam para Valinor, surpreendentemente Frodo também informa que vai partir.

Meio que se explicando para os demais hobbits, ele diz algo parecido com "Não tinha como voltar para casa e retomar as coisas como eram/fazer as coisas do mesmo jeito." Isso justifica o ar melancólico que ele mostra durante seu tempo no Condado, após voltar da aventura.

Seguindo o paralelo, quando eu vejo os alunos voltando do exame, raramente eles voltam da mesma forma. Sempre voltam melhores do que foram, independente de terem passado, independente da faixa nova. A experiência e a provação que é somada ao currículo deles fazem com que se tornem pessoas maiores e melhores dentro da academia.

E sábio é aquele que procura transbordar esta mudança para toda a sua vida.

Ah! O nome do post? Em sindarin (língua dos elfos), só para manter o clima...

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Braços Cruzados

Quando começamos nossa prática no Kung Fu, ou mesmo em qualquer coisa nova em nossas vidas, ficamos um pouco inseguros, já que tudo é novidade e há muito para ser explorado.

Entretanto, esta fase de insegurança passa com a mesma velocidade em que estamos abertos para aprender, experimentar novas práticas e explorar como a novidade do Kung Fu, por exemplo, pode trazer benefícios à nossa Saúde.

Mas talvez meio que pelos hábitos de nossa sociedade atual, temos uma certa tendência em temer o novo ou ainda algo que possa nos tirar de nossa zona de conforto, por mais que saibamos que é fora desta zona de conforto que evoluímos.

Com isso, nosso corpo expressa este desconforto e insegurança com uma ação comum: cruzando os braços.

Encontrei neste link uma definição interessante:

"Braços cruzados na frente do corpo - Indicam uma variedade de significados, dependendo da situação. Pode ser uma forma de se resguardar, de se proteger ou de mostrar medo, timidez, força ou poder (uma fortaleza). Como também uma pessoa com os braços cruzados pode, simplesmente, ser fria. De uma forma geral demonstra uma posição defensiva."

Como aproveitar ao máximo o que é oferecido na academia, estando em uma posição fechada?

Teste, arrisque, erre, pergunte, converse, experimente...Tudo isso é Kung Fu! É um eterno aperfeiçoamento prático!

Mas não cruze os braços antes, durante ou depois da aula. Somente quando não estamos na defensiva é que podemos vivenciar uma prática produtiva e enriquecedora.